domingo, 20 de março de 2011

centésimo vigésimo capítulo [120º]

Acordei ainda nos braços dele, mas do lado contrário. Virei-me para o ver e ele estava acordado e tinha os olhos postos em mim. Ele sorriu e eu não me pude conter.


- Bem-vinda, dorminhoca! – ele riu-se.

- Dormi muito?

- Mais do dobro do que eu…

- Oh, mas contigo nem vale a pena comparar, eu não faço exercício à muito, e se já quando fazia ficava acabada imagina como estarei agora.

- Eu te deixo doida, mesmo! – troçou.

- Ainda tas a gozar?! Deixa-me dormir, amor…


Aconcheguei-me mais nos seus braços e dormi até de manhã.


--
SEXTA-FEIRA: 11 de Março de 2011

Quando abri os olhos ele estava do meu lado, a abraçar-me, estava acordado e a ver um jogo de futebol na TV que estava em silêncio.


- Podes por mais alto…

- Acordei você amô? – ele perguntou de um jeito doce, acariciando-me depois.

- Não. – sorri. – Mas sei como gostas de ver jogos com som, e odeias em silêncio…

- Obrigado, anjinho. Tenho lasanha para nós no forno, quando quiseres vamos comé…

- Fizeste o almoço? – fiquei derretida a olhar para ele.

- Fiz sim… - ele beijou-me carinhosamente.

- Esperas só que eu tome banho, Vi?

- Claro amó! Te espero lá em baixo!


Eu levantei-me da cama, tomei um banho rápido e arranjei-me. Queria que o David estivesse com os seus amigos e ia propor-lhe isso ao almoço.


Desci as escadas ainda descalça e sem casaco, nem bolsa. Fui ter com ele à cozinha e a mesa e a lasanha já estavam colocadas em cima da mesa, e ele colocava um vinho nos nossos copos.


- Que gatona! – corei.

- Shiu!


Ele serviu-me e comemos calados. Estava um silencio de cortar a respiração, quando decidi cortá-lo.


- Devias marcar qualquer coisa com os rapazes… - sugeri.

- Cê acha?

- Sim… Mas tu é que sabes…

- E se formos os dois dar uma voltinha na praia e depois jantámos com eles?

- Parece-me óptimo!


Eu e o David demos uma ‘voltona’ pela praia e depois de ele combinar o jantar com o pessoal regressamos para casa para nos arranjarmos.


- David? O que é que visto? – disse ainda com a toalha à volta do corpo. – Vai estar frio?

- Já sabe que de moda, você me ganha! – riu-se. – Veste algo que se sinta confortável, e deixe um casaco no carro. Assim não tem frio.

- Bem pensado! – disse expressiva e voltei para o meu closet.


Vesti-me rapidíssimo e deixei o cabelo solto a secar por si, o David já estava na sala à minha espera, e desci para ir ter com ele.




- Vamos? – sorri e ele olhou na minha direcção.

- Vamo, garota… Mas eu levo já minha mala no carro, depois tenho avião. – fez um sorriso triste.

- Passou tão rápido…! – olhei para a expressão dele, e estava triste, aproximei-me e beijei-o na bochecha. – Eu vou voltar para a tua beira, Vi… Prometo-te!


Ele sorriu ligeiramente e começou a mexer-me no cabelo.


- Cê é linda, sabia?

- Não digas disparates, tu é que és, por conseguires aguentares isto tudo. Obrigada, amo-te mesmo!

- Eu sei, meu anjo, eu sei!


Saímos para o jantar com o pessoal. Estava lá toda a gente importante para o David que vivia em Portugal e ele esteve com um sorriso enorme no rosto durante todo o jantar.
Quando se aproximou a hora do voo, despedimo-nos de toda a gente, e o David conduziu ao meu lado para o aeroporto. Permanecemos a viagem toda calados, e ele mantinha a sua mão direita pousada na minha perna, e eu com as minhas por cima, acariciando.
Entendemo-nos muito bem assim, e era mais uma prova da grandeza do nosso amor. Era a prova de que nos podia acontecer tudo, podíamos ficar longe da vista, mas o nosso coração não vacilava, não duvidada que somos um para outro a pessoa mais importante das nossas vidas.
A despedida deles, foi invadida por lágrimas teimosas, que persistiam em ficar, e não saíram das nossas caras nem um segundo. O David era mais forte, pelo menos, mostrava-se mais forte, e isso ajudava-me. Eu sabia que ele me amava, e se alguma vez pusesse isso em questão bastava olhar-lhe nos olhos, ver a maneira que ele me olhava e sentir o seu toque com atenção.

Voltei para casa, quando as lágrimas já estavam secas. Tinha uma semana de muitas sessões fotográficas pela frente, que prometiam ser super cansativas, e tinha que levantar a cabeça e lembrar-me que ele prometera esperar por mim, até me sentir preparada de novo.

Paula 
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segunda-feira, 14 de março de 2011

centésimo décimo nono capítulo [119º]

QUINTA-FEIRA: 10 de Março de 2011


Os dias estavam a tornar-se totalmente insuportáveis sem o meu David a meu lado, ele continuava a aparecer em todos os jornais e revistas, ora pelo seu extraordinário desempenho em Inglaterra, ora porque foi deixado pela esposa modelo que abortou. Li todas as notícias e as palavras feriam como de uma faca a entrar no coração se tratasse. As lágrimas já não pediam licença para saírem dos meus olhos e usarem a minha face para competirem umas com as outras. Foi o primeiro ano, desde que estou em Lisboa que não fui à Moda Lisboa, apesar da vontade, sabia o batalhão de jornalistas que lá iam estar e isso era uma coisa que se dispensava. O voluntariado levava mais de metade do meu dia, e as sessões fotográficas que ainda fazia, para o sustento, a outra, ou seja, estava exausta! O único sitio onde me conseguia divertir um pouco era nos jantares e festa do pessoal, mas já não era a mesma coisa.

Sentei-me na cama, e olhei para um destino vazio.


*****

LEMBRANÇA: 16 de Setembro de 2009

Acordei depois de um jantar divertido com os rapazes e seguida de uma boa noite a dormir relaxadinha.
Levantei-me e abri os estores e a janela, uma brisa de ar quente correu pelo meu quarto. Dirigi-me então à casa de banho e depois de retirar a roupa que estava colada ao meu corpo tomei um banho fresco.
Vesti uma roupa confortável e adequada ao tempo (e calor!) que se fazia.


Desci às escadas, peguei na minha bolsa da escola e saí. O meu carro estava a arranjar e apanhei o metro para a faculdade. Cheguei lá num instante e as aulas correram mais rapidamente do que eu estava à espera.
Saí do edifício pronta para apanhar o metro para casa do David para lhe fazer uma surpresa. Mas parece que ele se antecipou e vi no Audi dele à porta, sorri e entrei sem pedir permissão.


- Oi! – ele esboçou aquele sorriso maravilhoso que me matava e beijou-me carinhosamente.

- Ia agora fazer-te uma surpresa, tonto! Antecipaste sempre! – acariciei-o.

- Eu sou assim…! Como correram essas aulinhas?

- Bem, podiam ter sido pior… E o teu treino, zuca?

- Foi bom, amô… E que me diz de almoçar-mos em minha casa, e termos uma tarde gostosa?

- Digo-te que não quero outra coisa… - mordi o lábio e beijei-o.

- Ainda bem, muleca!


Ele arrancou rumo ao apartamento dele e almoçámos o bacalhau que ele preparara. Depois de arrumar-mos a cozinha e enquanto ele estava na casa de banho, contemplei a vista que ele tinha daquela enorme varanda. Era linda, das melhores de Lisboa que já tinha visto.


- Então, amô? Que está fazendo?

- Estava a ver isto e a pensar… - ela sente-o a abraçá-la por trás. – O que é que estamos nós a fazer, praticamente às escondidas de toda a gente, amor?

- Estamos sendo felizes, estamos amando, lindona!

- Oh, David…! Eu amo-te tanto… mas isto confunde-me muito!

- Olha para mim, amô… Mesmo isto não parecendo correcto, sempre foi! E não vou deixá que ninguém entre na sua cabecinha e faça com que isto pareça ruim!

- És lindo, sabias? – beijei-o.


**


Voe por todo mar e volte aqui/ Voe por todo mar e volte aqui/ Pro meu peito.../ Se você for, vou te esperar/ Com o pensamento que só fica em você/ Aquele dia, um algo mais
Algo que eu não poderia prever/ Você passou perto de mim/ Sem que eu pudesse entender
Levou os meus sentidos todos pra você (…)

Os meus pensamentos voltaram com o som da música, olhei no ecrã e era David a ligar-me. Fiquei preocupada, pois ele nunca me ligara, e atendi imediatamente.


- Estou? – disse ofegante.

- Bom dia…

- Está tudo bem?

- Sim, e com você? – suspirei de alívio.

- Também…

- Acha que dá para vir ao aeroporto buscá seu maridão numa 1h30min? – um sorriso delineou a minha boca automaticamente.

- O quê?

- Tô dentro do avião para Lisboa…

- És louco, Vi!

- Tô morrendo é de saudade sua….

- Eu também, amor. Lá estarei, prometo. Amo-te.

- Beijo, te amo também.


Levantei-me num salto da cama e tomei um banho super rápido.
Vesti uma roupa normal, dei uma “secadela” no cabelo, coloquei um bocadinho de maquilhagem, para que ele não ficasse assustado quando me visse e saí de casa.




Conduzi calmamente, pois ainda tinha 20 minutos, e cheguei lá, na hora combinada, saí do carro e vi, que o avião já tinha chegado.
Naquele tempo que esperei, quando finalmente parei e pensei um pouco, o meu estômago estava como se fosse a primeira vez que ia estar com ele. Era ele que eu queria para mim, era com ele que eu queria viver o resto da minha vida, e acho que nunca tive dúvidas disso, mas estava perto de largar tudo de novo e rumar a Londres, estava perto de deixar que ele me amasse e desejasse de novo.
Ele chegou, com o capuz da sweat na cabeça e com uma mochila nas costas, foi reconhecido por uns jornalistas que lá estavam, que aliás, já estavam à espera dele, assim que me viram também. Ele ignorou-os e quando os nossos olhares se cruzaram deixei cair uma lágrima praticamente imperceptível. Ele fez aquele seu sorriso maravilhoso e caminhou calmamente para junto de mim.
Abraçou-me em primeiro lugar, os abraços dele, fortes, que me transmitiam toda a segurança possível e imaginária. Depois, delineou a minha boca com o seu polegar e beijou-me tirando a sede que ambos tínhamos. Foi um beijo calmo, eu sabia que ele só me queria demonstrar o amor que sentia por mim, e como se mantinha intenso.


- Vem, vamos para o carro amô… - disse assim que separou as nossas bocas.


Eu limitei-me a acenar e caminhamos de mãos dadas até ao carro. Assim que entramos ele beijou-me com mais intensidade, o que fez que toda a minha espinha arrepia-se totalmente.


- Fazemos isto em casa, Vi… - disse ofengante.

- Te quero muito!

- Eu também. – sorri.


Conduzi freneticamente e constantemente arrepiada com o toque dele nas minhas pernas. Estacionei o carro e quando me preparava para sair do carro ele já me estava a abrir a porta e a puxar-me de lá com um beijo.
Eu saí, e só separei as nossas bocas, quando abri a porta. Ele atirou a minha mala ao chão, fechou a porta com muita força, que me fez estremecer com o barulho e voltou-se novamente para mim.
As suas mãos tocavam no meu corpo com uma vontade louca de voltar a fazer-me dele, eu retirei a sweat que ele trazia vestida e contemplei os seus abdominais, e toquei para matar a saudade que tinha deles. Tirei o casaco e ajudei-o a retirar a minha t-shirt. Ele sorriu ao ver-me só de soutien e aproveitou o facto de ter o meu peito ao seu dispor. Descalcei-me e num gesto suave ele retirou-me os calções, agora já só estava de roupa interior. Tive vontade de o ver assim também e demonstrei-lhe que queria que ele me ajudasse a tirar-lhe as calças, ele sorriu.


- É o que faz ser a minha meia lequinha… - mordeu o lábio deixando-me louca.

- Tu vê lá, David! Meia lequinha, o caraças! – fingi-me indignada.


Ele calou-me com um beijo intenso e retirou as calças. Estávamos outra vez, quase nus um para o outro, no meio da nossa sala. Ele num balanço dos nossos corpos deixou-se cair sobre mim no sofá, e senti-o excitado. Ele fez indicação e eu retirei o soutien. As duas últimas peças que nos restavam foram tiradas entre beijos e carinhos. Tinha saudade dele, de ser amada, de ser desejada, e destes momentos só nossos.


- Amo-te! – acabei por lhe dizer.

- Eu também, meu amô… - o olhar dele era sincero e transmitia-me segurança.


Ele uniu os nossos corpos, calmamente e a um ritmo constante e vi na sua cara, uma preocupação para não me magoar. Acariciei-o para que ele percebesse que eu estava bem, mas ele continuava com a mesma expressão.


- Amor? – chamei-o.

- Oi? Tô magoando, você? Eu vou com calma...

- Nada disso, óh! Eu estou bem, relaxa.

- Está mesmo?

-  Mesmo, David. Não te preocupes, vá. Podes acelerar se sentires mais prazer… - acariciei-o novamente.

- Obrigado, anjinho. Te amo.


Ele beijou-me e o ritmo acelerou um pouco. Quando termina-mos, ele pegou em mim e levou-me para o nosso quarto. Adormecemos nos braços um do outro.

E agora? Tinha provas suficientes que tinha o melhor homem do mundo comigo, mas seria isso suficiente?






Paula 
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quinta-feira, 10 de março de 2011

centésimo décimo oitavo capítulo [118º]

- Eu ligo… Esperas por mim?

- Claro, amor. Se preferires eu saio. – sorriu amavelmente.

- Não é preciso, eu ligo-lhe lá fora. – levantei-me e dei-lhe um beijinho na testa. – Obrigada por estares aqui comigo.

- Deixa lá isso, teimosinha!


Saí e marquei o número do David com um nervosismo que dava cabo de mim. Ele atendeu ao primeiro toque.


- Paula? – disse ofegante.

- David… - as lágrimas percorreram-me a face toda e contive-me para que ele não percebesse que estava a chorar.

 - Então… Está tudo bem, garota?

- Está… E contigo?

- Também…

- Desculpa, Vi… Eu não devia ter ligado, mas precisava de te ouvir, e achei que me querias ouvir também… Mas depois de tudo o que te fiz…

- Shiu! Claro que eu te quero ouvi’, meu amô… Mas não estava a espera, e gosto muito de você amô… Já tinha saudade da sua voz…

- E eu da tua, zuca! Vê se te divertes com os zucas daí neste carnaval.

- Vou fazê-lo por você!

- Desculpa, vou ter que desligar, a Mariana está à minha espera. Beijinhos.

- Beijão, te amo muitão!

- Eu também, Vi… - sorri com as palavras dele e desliguei.


Entrei na sala e a Mariana estava a ver Pretty Little Liars.


- Então vais dizer-me onde vamos? – ela olhou-me confusa.

- Já?

- Sim! Vais dizer-me ou não?

- Não, vamos e acabou.


Levantou-se, vestiu o casaco, pegou na mala e nas chaves do carro e arrastou-me até lá. Estacionou o carro no Chiado.


- Mariana, esta rua não! E a esta hora…!

- Relaxa, não está cá muita gente, vamos às compras, estás a precisar, e vais comprar um vestido lindo! Vamos sair hoje com o pessoal!

- Mariana…

- Vá lá! Eu deixo-te em casa logo que queiras, mas vem, por favor! Até o Pedro e o Luís vão…

- Fico pouco tempo! E além disso vamos a minha casa que tenho tantos vestidos…

- Mas este sou eu que te dou! Hoje sou eu que trato de mim…

- Obrigada… És sem dúvida a melhor! – ela sorriu.

- Eu sei, eu sei disso!


Rimo-nos e fomos à procura de um vestido. Não estávamos a encontrar nenhum e fizemos uma pausa para o almoço que se estendeu numa conversa intima até às 17h da tarde.
Depois de muito procurarmos compramos as duas um vestido e os acessórios e mudamo-nos no nosso apartamento antigo que ficava mesmo lá perto.
Não me arranjei muito, não queria dar nas vistas e por isso optei por um look mais natural.


- Estás linda…! – a Mariana ficou durante algum tempo a observar-me.

- Nada disso, não ‘tou exagerada pois não?

- Não, estás perfeita, amor! Acho que é melhor ninguém te mostrar ao brasileiro, senão o rapaz tem um ataque e apanha o primeiro avião que houver para Portugal.

- Shiu! Mudo já de roupa, óh!

- Estou na paz, ‘miga! – rimo-nos com a expressão dela e saímos para o jantar.


Saímos para o restaurante e estava lá toda a gente, isolei-me com os meus rapazes, o Pedro e o Luís, porque sabia que eles eram os únicos que não me iam lembrar do David, mas sim dos momentos mais felizes que já passei em toda a  minha existência, não só em Lisboa, mas também em Fafe.
Matamos as saudades, e no final eles levaram-me a casa. Deitei-me com o intuito de descansar um pouco. Queria ir fazer voluntariado amanhã de manhã e de tarde ainda tinha uma sessão fotográfica para a Victoria’s.



Paula 
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 (peço desculpa, por ter demorado tanto tempo para postar e o capítulo sair pequenino :s vou tentar apressar o próximo.)


domingo, 6 de março de 2011

centésimo décimo sétimo capítulo [117º]

SEXTA-FEIRA: 4 de Março de 2011


“She's all laid up in bed with a broken heart/ While I'm drinking jack all alone in my local bar/ And we don't know how, how we got into this mad situation/ Only doing things out of frustration/ Trying to make it work but man these times are hard.”


Acordei com o telemóvel, virei-me na direcção da mesinha de cabeceira onde ele estava a puxei-o para mim. No visor dizia “Mariana” e atendi.


- Oi? – arrastei a voz.

- “Bom dia! Toca a levantar-se da cama que hoje o teu dia é por minha conta.”

- Ei… Nada disso, liga-me mais tarde, Mariana.

- “É preciso ir aí a casa, Paula? Faz o favor de te despachares, passo aí daqui a uma hora e meia. Beijo.”


Não tive oportunidade de dizer nada que a impedisse pois ela desligou.
Levantei-me da cama quentinha e coloquei-me no duche, a água tava morna, e tomei banho rápido porque me sentia a congelar.
Abri o guarda-roupa e vesti uma roupa quente e normal, na verdade não sabia o que vestir porque não sabia para o que eu ia.



Fui até à cozinha e tirei uma laranja da cesta da fruta, descasquei-a e comi-a sentada no sofá enquanto esperava que a teimosa da Mariana chegasse.
A minha cabeça invadiu-se com pensamentos.



LEMBRANÇA: 07 de Janeiro de 2010


Acordei com uma dor de cabeça que parecia que não ia acabar, ontem tinha-me deitado tarde, depois de uma noite quase em claro a estudar para o exame que tinha dentro de três horas.

Levantei-me da cama e encaminhei-me para o chuveiro para tomar um banho quentinho e que me relaxasse. Vesti uma roupa confortável e apanhei o cabelo.



Desci à cozinha e preparei um latte machiatto (na máquina de tirar, claro!) quentinho e umas torradinhas com doce de morango.

“Oh, New York/ Oh, New York/ Grew up in a town/ That is famous as a place/ Of movie scenes/ Noise is always loud/ There are sirens all around/ And the streets are mean”



O telemóvel tocou, e quando o alcancei vi no ecrã uma foto do David. Sorri instantaneamente e atendi.



- Estou? – disse com uma voz rouca.

- “Acordei você?”

- Não, amor… Já acordei à uma hora e meia, tenho o exame daqui a pouco…

- Estudou bem?

- Acho que sim…

- Então depois vem almoçar comigo! Tô morrendo de saudades!

- Não posso ir almoçar, tenho que ficar na faculdade até às seis amor… Também tou cheia de saudades! – acabei por dizer.

- Nos vimos no jantá com o pessoal, em minha casa?

- Sim. Eu vou ter contigo logo que esteja despachada, pode ser?

- Claro! Traga uma muda de roupa e passa cá a noite comigo, sim?

- Sim… Vou ter que sair agora, não quero chegar atrasada… Beijo, amo-te!

- Beijão, te amo também!



Desliguei a chamada e corri ao piso de cima. Fiz a mala para levar para casa dele e coloquei a roupa que provavelmente vestiria para logo à noite em cima da cama, assim ficava mais rápido para estar com ele.


Conduzi até à faculdade, e cheguei quase na hora.
O exame correu bem, também com aquelas horas todas de estudo, acho que era a única coisa que esperava.
Fiquei na escola até às 17h30 a tratar do meu projecto do mestrado, que estava quase a acabar e depois segui para casa, para me arranjar.





Antes de sair de casa mandei uma mensagem ao David:

“Amorzão, vou sair de casa agorinha. Tenho muitas saudades! Amo-te mais do que tudo. Beijo, Paula*”

Conduzi até casa dele e entrei com as minhas chaves.

- David?! Cheguei! – gritei.

Ouvi uns passos, e pouco depois vi-o a sair da cozinha e ficou na porta a olhar-me.


- Então? Nem direito a um beijo tenho? – brinquei porque estava a ficar corada pela maneira que ele me olhava.

- Valeu a pena a espera, amô… - falou de uma maneira tão doce que me arrepiei.


Encaminhou-se para mim, acariciou-me a face e voltou a olhar de cima a baixo para mim. Beijou-me muito fugazmente. E ficamos abraçados durante algum tempo.


- Isso eram tudo saudades, Davidzão? – sussurrei-lhe.

- Sim… Te amo tanto! Tô mesmo precisando de você!

- Eu agora não tenho mais exames, só tratar do projecto, por isso, vou ficar mais tempo contigo, prometo-te!

- Mesmo? Não quero que se prejudique por minha causa.

- Mesmo! E sábado vou ver-te a Vila do Conde.


Um sorriso inundou os seus lábios e eu fiquei embevecida a olhá-lo.


- Cê é perfeita, sabe? Nunca me deixe, por favor!

- Não vou fazê-lo. Só se tivesse muito mal, para deixar um homem como tu!

**




- PAULA! – voltei ao real com um grito de Mariana e olhei-a confusa.

- Como entraste?

- Com as minhas chaves, nunca as usei mas toquei 7 vezes e tu não me abriste a porta e fiquei preocupada!

- Desculpa… Desculpa. – baixei a cabeça.


Ela aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado.


- O teu pensamento estava em Londres, amor?

- Não… Estava vidrado a recordar o tempo que fui feliz com ele cá. Era tudo óptimo…! Ele estava no meu país, na cidade que eu gosto tanto, amigo dos meus amigos, tenho a gente que gosto perto, os meus meninos do IPO, a carreira dele no Benfica não podia ser melhor, foi o melhor jogador e levou-nos a erguer a taça pela trigésima segunda vez… - suspirei.

- Tu sabias que ia ser difícil segurá-lo… O David tem um talento incrível, e eu sei o quanto orgulhosa de o teres sempre contigo estás.

- Eu não tive forças para segurar no nosso filho, Mariana! Se eu continuasse em Londres com ele, não o ia deixar ser feliz, não o ia deixar amar-me, tocar-me e muito menos desejar-me.

- Eu sei que ele te compreende, ele disse ao Rúben que vai esperar por ti todo o tempo do Mundo. Vamos sair hoje, vamos às compras no Chiado, jantar com o pessoal todo, um bar ligeirinho com música boa… Vamos divertir-nos.

- Não, desculpa, mas nesta altura de Carnaval tudo me vai fazer lembrar o David com o seu samba maluco! – sorri ao relembrar-me.

- E isso é bom… Já lhe ligaste desde que voltaste?

- Só quando o avião aterrou… E entretanto é só por mensagens à noite quando eu não consigo adormecer.

- Liga-lhe… O David vai quer ouvir-te e tu também vais querer ouvir a voz dele!

  



Paula 
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sábado, 5 de março de 2011

centésimo décimo sexto capítulo [106º]

SEGUNDA-FEIRA: 28 de Fevereiro de 2011


Hoje saio do Hospital, e o David tem sido incansável, passando o tempo todo comigo aqui. Ele é, sem dúvida, a pessoa mais extraordinária que conheço, só isso explica que tenha ficado comigo, mesmo com a minha frieza. A Mariana teve cá, mas foi logo depois embora por causa do bebé.

Vesti uma roupa simples e confortável e voltei para casa com o David.





- Amô… Veste um pijaminho quentinho, eu faço o come para nóis, e comemos quentinhos na cama… - beijou-me na ponta do nariz e fez-me estremecer.

- David? Tenho medo…

- De quê, meu amo? – abraçou-me.

- Vou voltar para Portugal, preciso muito daquilo, de voltar a ajudar as crianças no IPO, de voltar a trabalhar naquele que sempre fora o meu sonho, de me sentir em casas, junto às minhas origens, e de me reencontrar. – faltou-me a coragem e olhei-o a medo.

- Cê vai me deixá?

- Não… A menos que queiras, já sabes que estás sempre comigo…


Ele acariciou-me muito docemente.


- Cê tá precisando disto para ser feliz? – olhou-me nos olhos.

- Preciso muito, David! Eu vou voltar, eu juro que vou, tu és meu para sempre! – uma lágrima escorreu-me pela face…

- Eu te amo tanto, Paulinha!

- Eu sei, eu sei… Eu também…

- Vá, se veste que eu vou fazer a nossa comida… - beijou-me suavemente.

- Amanhã ainda vejo o teu jogo, só vou dia 2…


Ele fechou os olhos, e sorriu.


- Prometo que vou marcá um golo para você…

- És o homem mais bonito que já vi…

- Cê é louca! – deita a língua de fora.


Subi as escadas e vesti um pijjama confortável. Ele voltou com dois tabuleiros de lasanha. Jantamos completamente calados.


- Vou ter muita saudade disso… - encarou-me quando ambos já tínhamos jantado.

- Eu sei, eu também…

- Você não vai pedi o divórcio… Vai?

- Achas, tontinho? – acariciei-o.

- Não sei…  - confessou. – Tenho medo de perder você…

- Não vais perder… Eu sou eternamente tua, David!

- Ainda bem…



Acabei por adormecer assim, nos braços dele… Podia ser das últimas vez que dormíamos assim, pelo menos, até voltar a perceber que já sou boa para ele… Sentia-me insegura, iria voltar para Portugal sem ele, e isso ia custar-me muito.


TERÇA-FEIRA: 1 de Fevereiro de 2011


Acordei sem o David a meu lado. Tinha deixado um bilhete na sua almofada.

“Bom dia… Ia para acordar você, mas estava dormindo tão bem que não tive coragem de te despertar… Espero você logo. Beijo, te amo.”


Levantei-me e reparei que já eram horas de almoço. Tomei um banho relaxante e vesti uma roupa normal.





Reparei que a hora do jogo se aproximava e depois de estar totalmente arranjada, chamei um táxi que me levou a uma hamburgaria perto do estádio. Não gostei nada de ser reconhecida, muito 
menos de o ser por ter perdido o meu bebé.

Comi a hambúrguer num lápice, queria sair rapidamente dali. Caminhei calmamente até ao estádio e sentei-me na bancada perto dos bancos de suplentes.

Ele entrou como titular, e mandou um beijo assim que me viu. Sorri de orgulho, de saudade… 
O David fez um jogo excelente, e quando marcou o golo do empate, o meu coração disparou! Ele veio a correr na minha direcção apontou , fez um coração com as mãos e mandou um beijo. Arrepiei-me totalmente.

*

Encaminhei-me para a garagem onde ele sairia, e enquanto todas as outras mulheres estavam juntas e conversavam eu coloquei-me num canto, a olhar para o telemóvel e fingir que mandava mensagens.

- Hey! Tá falando com quem? – a voz dele fez-me estremecer, estava caída em pensamentos.

- Ninguém… Só estava à tua espera… - sorri. – Parabéns!

- Você é a minha musa inspiradora… - disse contra os meus lábios.


Acariciou a minha pele gelada com a sua pele queimada, juntou muito suavemente os nossos lábios e beijou-me com uma intensidade que nunca tinha sentido antes.


- Vamos para casa? Pegamos uma comidinha no caminho e ficamo’ mais um tempinho junto…

- Sim, vamos!


Passámos aquela noite juntos, ambos com um tom de nostalgia em cada palavra. Entreguei-me a ele, com a esperança que não fosse a última vez.



*
Parti cedo, com lágrimas nos olhos por tê-lo deixado num estado lastimável. Prometi que voltaria se ele ainda me quisesse e ele jurou-me que esperaria por mim até ao seu último milésimo de segundo.

Eu tinha a certeza que voltaria, não tinha prazos e por isso não me iria meter em nada comprometedor em Portugal. Iria continuar a trabalhar como modelo e isso poderia continuar a sustentar o meu estilo de vida. Talvez o que estava a precisar mesmo era de fazer voluntariado, se sair com os meus amigos, e de perceber a falta que o David me faz na minha vida. Esperava mesmo que ele esperasse por mim, mas era algo pelo qual não podia implorar, depois de lhe ter feito isto.

Precisava desta distância, pois com a raiva que estava de mim própria, não ia deixar o David amar-me como sempre amou, e não o iria deixar-me tratar bem depois de ter perdido o nosso filho.





Paula 
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